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Entrevista com Myrela Karr


Memória LGBT: Como foi o processo de se descobrir mulher?

Myrela: Desde criança eu queria ser mulher. Quando você atinge a maioridade você faz es‑ colhas. Então não foi uma transformação, foi uma escolha. Eu decidi: “quero ser mulher!” Então tenho que mudar, passar por procedimentos para conseguir isso. Não foi uma transformação.

Memória LGBT: Como a comunidade reagiu?

Myrela: A princípio houveram críticas. De uma forma geral todos tem preconceito, mas é camuflado. Foi uma situação inusitada e, para falar a verdade, eu não me importei muito, mas isso impactou muita gente da comunidade. Muitos me olhavam e me tratavam diferente. Perdi amigos, mas o que não me acrescenta não me faz falta.

Memória LGBT: Você tem um irmão gêmeo. Como foi para ele? Ele recebeu críticas ou piadas?

Myrela: Ele nunca concordou, mas respeita. Porém a opinião dele não está em jogo. Piadas e brincadeiras ele sempre ouviu, mas sempre relevou. Ele me respeita da mesma forma que respeito ele.

Memória LGBT: Hoje você possui um cargo no mercado de trabalho. Você sente que o merca‑ do está aberto para o público T e LGB?

Myrela: O mercado de trabalho está aberto para quem quer trabalhar!

Primeiro: você precisa se aceitar, tomar a iniciativa, não ter preconceito com você e com o seu corpo.

Segundo: você pode sim, você é um ser humano como outro qualquer. Você não é um bicho de outro planeta. Você só tem uma identidade de gênero diferente. É claro que existe preconceito, mas muitas empresas, após ter um funcionário LGBT, acabam contratando outros.

Memória LGBT: Hoje você namora? Ele já sofreu preconceito?

Myrela: Dentro da comunidade nunca houve, mas em outros lugares é inevitável. Vivemos em um mundo de preconceitos, por mais que seja camuflado algumas pessoas deixam transparecer. Eu preciso ter o pé no chão, a mente equilibrada, e segurança para deixá-lo seguro. Na Mangueira, onde ele mora, já aconteceram algumas piadas, mas na minha presença me respeitam.

Memória LGBT: Qual a memória que você jamais gostaria de esquecer?

Myrela: Memórias são muitas! Mas o que nunca vou esquecer, foi o que eu conquistei ao longo da caminhada. Se hoje eu estou mulher foi graças ao meu trabalho e ao meu estudo. Sou uma vencedora. Hoje eu tenho 400ml de silicone no corpo. Eu me planejei, fiz um tratamento longo, fiquei com medo, mas eu me vejo no espelho e gosto. Isso me marca muito, foi tudo graças a mim.

Memória LGBT: Qual é a frase que define?

Myrela: “Eu quero. Eu posso. Eu consigo”. E “lute com unhas e dentes”. As pessoas dizem que matam 1 leão por dia. Nós transexuais matamos 11. Nós não passamos despercebidas em lugar nenhum. Isso incomoda, mas temos que entender que somos pessoas como outra qualquer, com os mesmos direitos. A sociedade é acostumada com seres iguais, o diferente ela não entende e não respeita.

REVISTA MEMÓRIA LGBT – ANO III – EDIÇÃO IX – Agosto /2015 – P.6-7- ISSN 2318-6275 - WWW.MEMORIALGBT.COM

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