• Liliane Ribeiro

Aumenta o número de mulheres na meia idade "saindo do armário”.


No começo, paira a incerteza se esse sentimento é por mulheres em geral, ou apenas por uma mulher em particular. Mas gradualmente elas acabam aceitando a sua bissexualidade e percebendo que essa “mudança” não é nada incomum.

Ao passar por essa experiência e em busca de explicações a autora, jornalista e blogueira Liliane Ribeiro da página Papo Reto, que fala sobre relacionamentos, decidiu entrevistar outras mulheres casadas que se apaixonaram por mulheres e frequentam a Rede Social. “Mulheres de todo país começaram a me procurar, fiquei impressionada com a quantidade de pessoas que conhecia alguém nessa situação, ou passavam por isso. "Se você tivesse me perguntado há dois anos sobre isso eu teria respondido que sei exatamente quem e, o que eu sou e, não sou bissexual e nem poderia ser", disse a autora.

Muitas das saídas do armário, quando o assunto é bissexualidade, começam depois dos 30 anos ou mais e isso tem atraído a atenção crescente da mídia nos últimos anos. Em parte, devido ao grande número de mulheres que têm falado abertamente sobre suas paixões após seus relacionamentos heterossexuais.

Na terra do Oscar por exemplo, Cynthia Nixon, que interpretava Miranda em Sex and the City, vivia um relacionamento heterossexual por 15 anos, teve dois filhos, antes de se apaixonar por sua parceira, Christine Marinoni, em 2004. A atriz Portia de Rossi era casada com um homem antes de assumir sua bissexualidade e se apaixonar pela comediante e apresentadora de talk shows, Ellen DeGeneres, com quem se casou em 2008. A estrela britânica de consultoria e televisão, Mary Portas, era casada com um homem por 13 anos, e teve dois filhos, antes de se unir com Melanie Rickey, a editora de moda da revista Grazia. Fernanda Gentil assumiu, em 2016, o namoro com a também jornalista Priscila Montandon. Bruna Linzmeyer com Priscila Visman, Daniela Mercury casada com a jornalista Malu Verçosa, são alguns dos casais anteriormente héteros que hoje esbanjam alegria e cumplicidade em seus relacionamentos homoafetivos.

Recentemente o primeiro casamento entre mulheres realizado no Hotel Copacabana Palace, cartão postal da cidade do Rio de Janeiro em seus 95 anos de história foi notícia internacional. A farmacêutica Roberta Gradel e a economista Priscila Raab se casaram em uma cerimônia judaica com a presença de cerca de 200 convidados.

O assunto agora começou a atrair a atenção acadêmica. A Associação Americana de Psicologia, em San Diego, possui uma série de pesquisas e estudos sobre a vida de mulheres que experimentaram uma atração pelo mesmo sexo depois de terem casado com homens.

O estudo concluiu que "uma mulher heterossexual pode fazer uma transição para uma identidade bissexual”. Mas por alguma razão essa possibilidade é muitas vezes ignorada.

Quando uma pessoa “sai do armário”, dizem que essa, sempre foi gay ou bissexual e que apenas escondeu ou reprimiu seus sentimentos. Mas a ciência e a psicologia são contrárias à sabedoria popular. Cada vez mais os pesquisadores estão questionando, investigando e afirmando que a sexualidade é mais fluida e mutável do que se suspeita. A possibilidade de atravessar fronteiras sexuais aumenta à medida que as pessoas envelhecem e se tornam mais expansivas e independentes.

“Cada mulher que conversei, que passou pela transição diz não ter sido algo tão simples. A cultura tende a definir mudanças e escolhas, como se fossem o mesmo fenômeno, mas não são. A puberdade envolve muitas mudanças, mas você não a escolhe. Há transições de curso de vida que estão além do nosso controle”, disse Liliane.

A afirmativa comum a todas as mulheres entrevistadas é " eu me apaixonei pela pessoa e, não pelo gênero". No estudo da Associação Americana de Psicologia, cerca de um quarto das mulheres das 520 entrevistadas relataram que o gênero é amplamente irrelevante na escolha de parceiros sexuais. "No fundo", disse uma entrevistada, é uma questão de amor incondicional que não tem a ver com genitália, é algo além do sexo e do e gênero. Os relacionamentos homoafetivos são muito diferentes dos relacionamentos entre mulheres e homens assim como a satisfação sexual que entre mulheres é incomparável. "

É claro que a afirmação que a sua sexualidade pode mudar com o passar dos anos não é bem-aceita por todos. Mesmo que os tempos tenham mudado e a aceitação da bissexualidade hoje seja bem maior do que há 20 anos, a união de duas pessoas do mesmo sexo ainda é muito estigmatizada. A falta de conhecimento sobre algo tão pessoal e íntimo pode aterrorizar algumas pessoas. É por isso que pesquisas nessa área são tão importantes.

A maioria das mulheres com quem conversei estava em relacionamentos felizes e de longo prazo com seus pares femininos e curtindo um contentamento jamais experimentado em seus relacionamentos héteros.

Enquanto algumas pessoas enxergam essa mudança como ameaçadora, outras dizem ser excitante e redentora. No caso da bissexualidade, segundo a escritora e blogueira Liliane Ribeiro, as mulheres na idade adulta são as mais propensas a vivenciarem esse “poder sexual”.

“Somos uma sociedade antienvelhecimento. Gostamos de ser jovens, núbeis e atraentes. E eu acho que a noção de que sua sexualidade ainda pode ser empolgante e intensa em um estágio da vida em que a maioria das pessoas supõe que as mulheres não são mais sexualmente interessantes, essa mudança é a expressão do amor em potência máxima. Muitas mulheres bi ainda se sentem oprimidas por seus dogmas, credos familiares e culturais, e continuam em seus relacionamentos héteros com medo do que poderão encontrar assumindo a sua bissexualidade.

“Seja o que tenha acontecido em nosso passado, isso não profetiza o que o nosso futuro nos reserva. Se for para eu sofrer ou para eu morrer, que seja por amor " completa a escritora que se casará em setembro com a empresária Miriam Gomes, 54 anos presidente da Instituição Edmundo e Olga. A festa, promovida por amigos e abençoada pelos filhos das duas promete abalar a cidade do Rio de Janeiro e contará com a presença de personalidades e famosos.

A ideia da paixão por outra pessoa do mesmo sexo pode nunca ter passado pela cabeça de muitas mulheres que hoje encontram-se em relacionamentos homoafetivos.

Liliane Ribeiro

Contato: lilianenota10@yahoo.com.br

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