• Revista Memória LGBT

Mestre Tartaruga


Mestre de Capoeira, um dos sócios‑fundadores do MUF, produtor cultural e integrante de movimentos sociais, Sidney Silva – mais conhecido como Mestre Tartaruga – é um homem atento ao seu tempo. Nascido e criado no PPG, filho do renomado compositor de samba Joel Silva, pai de dois filhos, o Mestre não tem medo de abrir as portas para a temática LGBT em suas ações. Em entre‑ vista para a Revista Memória LGBT, ele fala um pouco mais sobre o projeto Memória LGBT no MUF, suas principais contribuições e perspectivas. Deixa, com isso, uma clara lição de que memória e museologia não podem se entregar às fobias contemporâneas.

Memória LGBT: Como surgiu a ideia de abordar a Memória LGBT no MUF?

Tartaruga: O MUF é um guarda‑chuva cultural criado para fortalecer a identidade e memória cultural da comunidade. Há algum tempo venho percebendo a crescente manifestação de jovens e adultos buscando uma identidade, uma autoafirmação LGBT na comunidade. Como trabalho na comunidade, tenho que estar atento a suas movimentações. Achei que deveria ser feito alguma coisa, algo como uma rede de conversas e diálogos sobre o tema na comunidade. Como faço parte da Rede de Pontos de Memória, procurei os parceiros Tony e Jean, da Rede LGBT de Memória e Museologia Social do Brasil, que já tocavam a revista Memória LGBT. Propus uma parceria para concorrermos ao fundo destinado às comemorações dos 450 anos do Rio de Janeiro. Felizmente deu certo e pudemos começar o trabalho.

Memória LGBT: Muitas instituições receiam abrir as portas para a temática LGBT pelos riscos de sofrerem preconceito. Você não tem este receio em relação a sua pessoa e ao museu?

Tartaruga: Pô, não me importo se as pessoas vão ter preconceito comigo se estou apoiando um projeto LGBT. Estou tranquilo sobre minha sexualidade e quem me confundir é que tem problema. Tenho certeza que este é um tema que tem que ser levado em conta, pois é uma questão dos dias de hoje que precisa de esclarecimento. Creio, também, irmão, que nenhum museu deve ter medo de sofrer este tipo de preconceito. O mundo é complicado. Mas estou ai para o que der e vier. O importante é tocar o tema em frente e promover o debate.

Memória LGBT: Como viveram e vivem os LGBT no PPG?

Tartaruga: Na minha memória identifico alguns gays e lésbicas, na minha infância, mas as pessoas antes eram mais reclusas, ficavam mais na sua. Mas, sim, identificávamos alguns gays e algumas lésbicas na época. Mas era bem diferente do que é hoje. Existiam no carnaval de nossa comunidade, nos blocos locais, fazendo fantasias, organizando bailes, colaborando. Muitos também fechavam com a malandragem da época, tipo os Madame Satã da vida, aqueles marginalizados. E sempre houve a galera que transava cultura. Eles não foram expulsos do morro, nem precisavam sair, muitos viveram aqui até envelhecer e morrer. Hoje é outro cenário. Tanto homens quanto mulheres aqui vivem casa dos, namorando, vivendo juntos, presentes em diversas ações e espaços da comunidade.

Memória LGBT: Quais as contribuições que você espera para a comunidade a partir do projeto Memória LGBTno MUF?

Tartaruga: Espero que o projeto ajude a comunidade a ser mais consciente tanto com as questões do seu dia a dia, quanto o que está acontecendo no mundo, em todas as regiões. Como o MUF desenvolve um trabalho de resgate da memória, também temos que levantar o tema LGBT pois em tempos passados já havia LGBT vivendo aqui, eles fizeram parte de nossa história e também não podem ser esquecidos, como tantos outros grupos. Acho importante esta questão, pois este tipo de trabalho com a memória trará mais conhecimento para nossa comunidade tanto sobre seu passado quanto sobre seu futuro.

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