• Tony Boita

Projeto Memória LGBT no MUF comemora os 450 anos do Rio de Janeiro com primeiro seminário brasileiro


O Seminário Memória, Museus e Museologia LGBT foi realizado entre os dias 23 e 24 de maio de 2015. O evento integra as atividades de 450 anos do Rio de Janeiro, contando com patrocínio da Prefeitura do Rio de Janeiro, em uma iniciativa do Museu de Favela Pavão, Pavãozinho e Cantagalo (MUF) em parceria com a Revista Memória LGBT.

A atividade contou com o apoio do Grupo de Pesquisa Comunidades e Museologia Social (Comusas/UFG/Ibram/CNPq) e da Rede LGBT de Memória e Museologia Social do Brasil. Participaram diversas organizações, pesquisadores e ativistas do Brasil em sua construção e realização no que foi o primeiro evento do Brasil a abordar a relação das comunidades LGBT com memória, museus e museologia.

O Seminário compõe as atividades do projeto Memória LGBT no MUF, interessado em promover a visibilidade de memórias subterrâneas ao longo dos 450 anos do Rio de Janeiro e da comunidade do Pavão, Pavãozinho e Cantagalo (PPG).

A Revista Memória LGBT já lançou a edição “Ser lésbica na favela”, e será seguida pelas edições “Ser gay na favela” e “Ser trans na favela”. Cada edição é composta por uma exposição em revista sobre seu tema central resultante das ações promovidas pelo projeto na comunidade do PPG, assim como artigos e reflexões de membros comunitários e acadêmicos. Significados Diversidade.

Preocupações sobre a ascensão de religiões fundamentalistas e seu conservadorismo, “O objetivo do evento”, explica Tony Boita, museólogo e editor‑chefe da Revista Memória LGBT, “foi o de promover, estimular e fomentar a memória LGBT com os princípios estabelecidos pelos Direitos Humanos.

Procuramos, portanto, demonstrar que na contem‑poraneidade os museus e iniciativas comunitárias em memória e museologia social devem estimular o diálogo entre a memória, saúde, cultura, educação e cidadania, instigando nas instituições museológicas abordagens não fóbicas aos LGBT. Hoje ficamos muito felizes de vermos que LGBT profissionais de museus que antes não se assumiam nem se preocupavam com o tema já começam a ficar constrangidos em vi‑ ver no armário profissional.

A expectativa, de fato, é tirar a museologia brasileira do armário – ou melhor, da reserva técnica”. Ana Muza, coordenadora local do projeto, acrescenta que “coordenar o projeto está sendo um desafio muito grande, pois contrapõe todas as portas que se fecham quando uma negra, fave‑ lada, mãe solteira caça no‑ vos ideais e oportunidades. Quando assumo minha vida, minha comunidade e meu reconhecimento como negra, lésbica e empreendedora, me sinto gigante.

Por essas e outras, o seminário trouxe orgulho para a comunidade LGBT do morro”. Para o professor de museologia da Universidade Federal de Goiás (UFG) e coordenador do Grupo de Pesquisas Comusas, Jean Baptista, “o projeto e o seminário são experiências que fortalecerão o ensino de museologia no Brasil, tanto em virtude das exposições experimentais que estão sendo cria‑ das, quanto pela produção intelectual produzida pela Revista Memória LGBT.

O desejo é que a formação de novos museólogos seja mais atenta à diversidade e capaz de superar a matriz heterossexual que hoje domina o pensamento museológico, o ensino de museologia e os museus brasileiros”.

O professor Matias Monteiro, do curso de Bacharelado em Museologia da UNB, que apresentou relato do processo pedagógico de formulação do projeto expográfico da primeira exposição curricular com temática LGBT no Brasil, intitulada Vossa Majestade, a ser realizada em junho próximo, aponta que a inclusão da temática na formação do museólogo perpassa “compreender que a pluralidade de discursos produzidos no contexto da diversidade de gêneros beneficia a Museologia estruturalmente, ou seja, que os novos modos de expressão e produção de discurso emergentes nas práticas culturais, sociais e políticas deste grupos desafiam a Teoria Museológica, exigem revisitar suas bases epistemológicas e convidam‑nos a uma pro‑ funda reflexão acerca do próprio fazer museológico e da experiência museal”.

Ao problematizar a abordagem quando o assunto é o programa Pontos de Memória, Wellington Pedro, do Ponto de Memória do Taquaril (Belo Horizonte), acrescenta: “A realização do Seminário Memória, museus e museologia LGBT toca muitos sentimentos. Primeiramente sobre a importância de se discutir a respeito da temática em tempos de discursos de ódio e principalmente por ser um evento corajoso. Corajoso no sentido de trazer a discussão em um campo que responsável por trabalhar com a memória acaba por silenciá-la, principalmente sobre as questões LGBT.

Importante por apresentar os desafios para os museus que querem atuar para uma sociedade sustentável e que precisam perceber que a sustentabilidade se dará ao conhecer as necessidades do seu entorno e os diversos ecos das várias vozes sociais. O evento fortalece a caminhada da Rede LGBT, da Revista Memória LGBT e do Grupo de Pesquisas Comusas, mas vai além. Chega aos morros e comunidades periféricas, dando visibilidade aos sujeitos que tem esses espaços como território de pertencimento.

A realização em parceria com um ponto de memória vem agregar mais ainda ao evento, pois realmente mostra a atuação desses espaços de memória que buscam dar visibilidade aos sujeitos que vivem nas comunidades que atuam. Sai do evento querendo mais. Mais amor, por favor”. A segunda edição do evento, a ser realizada em aproximadamente um ano, será divulgada pela Revista Memória LGBT, assim como os artigos resultantes das atividades, em suas edições seguintes.

Integrantes e atividades Além do Museu de Favela, outras iniciativas em memória e museologia social com‑ puseram as atividades, entre elas os Pontos de Memória do Taquaril, Museu Sankofa da Rocinha e o Acervo Baju‑bá. O Instituto Brasileiro de Museus também esteve presente, bem como integrantes dos museus Itaipu e Histórico Nacional. Professores das universidades federais de Brasília e de Goiás engrossaram o time de palestrantes. Moradores do PPG, membros da Associação de Moradores, bem como do movimento social LBGT do RJ, deixaram importantes contribuições.

Tratou‑se, de fato, da reunião de diversos membros da Rede LGBT de Memória e Museologia Social do Brasil, tanto acadêmicos quanto comunitários. A abertura do evento ficou a cargo do sócio‑fundador do MUF Sidney Tartaruga (MUF), de Tony Boita (Re‑ vista Memória LGBT/Rede LGBT/Comusas) e Ana Muza (Revista Memória LGBT/Rede LGBT), idealizadores e organizadores do evento. A conferência de abertura foi de João Nery, seguida do lança‑ mento de seu livro “Viagem solitária”.

Após, realizaram‑‑se as palestras de André Botelho (Instituto Brasileiro de Museus Ibram), Wellington Pedro da Silva (Ponto de Memória do Taquaril/ Rede LGBT/Comusas), Jean Baptista (Universidade Federal de Goiás/ Rede LGBT/Comusas), Matias Monteiro (Universidade de Brasília/ Rede LGBT/Comusas), Rita Colaço (História Mhb‑Mlgbt) e Felipe Areda (Acervo Bajubá/ Rede LGBT). Já o segundo dia do evento contou com a abertura de Antônia Ferreira Soares, presidente do MUF, seguida das falas de Inês Golveia (Rede de Memória e Museologia Social do RJ), Mirela Araújo (Museu Itaipu/ Ibram), Aline Montenegro (Museu Histórico Nacional), Fernanda Faustino (Associação de Moradores do PPG), Marco Aurelio Almeida Soa‑ res (Coordenação Políticas LGBT de Campo Grande), Fernando Ermiro (Museu Sankofa), Leila Regina (Ponto de Memória do Taquaril/ Rede LGBT), Cíntia Marzano (Grife Mona), Julio Nogueira (Grupo Arco‑Íris) e Remom Bortolozzi (Acervo Bajubá/ Rede LGBT).

Os integrantes do projeto, Tony Boita, Ana Muza, João Victor, Jonathan Martins, Luana Araújo, Tainara Santos, Jaqueline Alves encerraram o evento. O evento angariou 40 quilos de alimentos em suas inscrições que foram doados ao Solar Menino de Luz, organização que cedeu sua sede para a realização das atividades.

Ocorreu, ainda, vacinação contra a gripe promovida pela Clínica da Família, também presente no evento, e a mini‑‑feira do livro LGBT promovida pela editora Metanoia.

REVISTA MEMÓRIA LGBT – ANO III – EDIÇÃO VIII– Junho /2015 – P.20-23- ISSN 2318-6275 - WWW.MEMORIALGBT.COM

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