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ENTREVISTA COM JOÃO VITOR


Memória LGBT: Já sofreu preconceito dentro da comunidade?

JV: Sim, desde quando eu não era assumido. Já fui chamado várias vezes de gay, veado, e apelidos ridículos que pessoas usam para tentar diminuir o homossexual. Pura ignorância. Mas, depois que me assumi, acabou o suspense e nunca mais sofri preconceito. Sempre tive e impus meu respeito na favela, até mesmo por ser filho do presidente que mais tempo ficou no cargo da associação de moradores. Ninguém nunca foi tão ofensivo, mas nas duas últimas vezes que me ofenderam, eu briguei com duas pessoas simultaneamente. Só briguei porque me ameaçaram de agressão, mas, graças a Deus, eu não me machuquei. Acho que depois disso eles viram que sou tão homem quanto qualquer outro homem, nunca mais ninguém ousou agir assim comigo.

Memória LGBT: Como foi o primeiro contato com a sua sexualidade?

JV: No colégio eu comecei a sentir algo pelo meu melhor amigo. Não posso chamar de atração, porque não sei ao certo se era isso, mas eu comecei a “gostar” dele e comecei a pesquisar o que era isso que eu estava sentindo. Queria saber se era normal. Depois de um tempo eu percebi que não podia fugir do que eu sentia, porque era algo e que fazia parte de mim.

Memória LGBT: Se você fosse dizer algo para a sociedade o que diria?

JV: Eu não escolhi ser gay. Gays são pessoas normais, Deus pede que a gente ame ao próximo e o mundo está pedindo socorro.

Memória LGBT: O que a homossexualidade representa na sua vida?

JV: Apenas a minha sexualidade, porque o João Victor é muito mais do que um rótulo que a sociedade impõe.

Memória LGBT: Como foi se assumir para os pais?

JV: Bem, toda mãe sabe quando o filho é diferente dos outros garotos, só demoram a aceitar. Eu sou uma pessoa muito franca, não foi muito difícil no meu caso. Ela “jogou um verde” e eu “entreguei uma cesta de maduros”, confirmei o que ela pensava e ponto final. Ainda fui mais ousado e perguntei se ela iria deixar de me amar por conta da minha sexualidade. Meu padrasto não aceitou bem, paramos de nos falar. Sai de casa também por esse motivo.

Memória LGBT: você saiu de casa na cara e na coragem? Quantos anos você tinha?

JV: Não, já estava planejando sair de casa para obter minha liberdade e seguir minha vida. Juntei todo os problemas em um e resolvi da minha maneira, mostrei do que era capaz e moro só desde então. Na época eu tinha 20 anos, sempre quis morar aqui na comunidade.

Memória LGBT: E a reação da sua mãe diante do seu primeiro namoro?

JV: Eu sempre fui muito transparente e sempre fiz questão de apresentar para a família, já que sempre fizeram questão de contar para todos que eu fui o primeiro gay assumido da família.

Memória LGBT: E a sua família, como reagiu?

JV: Sempre fui o querido da família e minha opção só diz respeito a mim. Deixei bem claro que ninguém tinha a audácia de se pronunciar diante da minha escolha que, na realidade, nunca foi uma escolha. Quem falasse de mim iria ouvir na mesma proporção, pois eu não dava nenhuma liberdade, nem mesmo para a minha mãe, para tal atitude. Todos me conhe‑ cem e entendem, tenho 100% de aceitação e respeito, não posso reclamar da minha família.

Memória LGBT: Uma palavra?

JV: Amor

Memória LGBT: O que o amor representa para você?

JV: Tudo. Com amor tudo sai perfeito, barreiras são quebradas e quanto mais amor melhor.

Memória LGBT: Você se lembra do seu primeiro beijo com um garoto? Quantos anos tinha e onde foi?

JV: Lembro até o da garota (risos). Eu tinha 17 anos, foi na Lapa, atrás de uma árvore.

Memória LGBT: A sua maior vontade?

JV: Dar continuidade ao trabalho do meu pai, me sentir completo, ajudando muitas pessoas com projetos desenvolvidos na minha comunidade e de seguir a carreira artística. Sinto que eu nasci para isso.

Memória LGBT: O que é a homofobia para você?

JV: Sinônimo de ignorância, abuso e falta de educação dentro de casa.

Memória LGBT: João Victor por João Victor?

JV: Sem rótulos, Vulcão de personalidade, Extrovertido, Animador de Pessoas e Ambientes, Implicante, Turrão, Ansioso, Sonhador, Poeta Amador, Político e Cômico.

Memória LGBT: O que te faz mais feliz?

JV: Arrancar sorrisos de outros, pois tenho a sensação de estar fazendo sempre alguém feliz.

Memória LGBT: Uma mensagem para os gays da sua comunidade.

JV: Unidos somos uma potência!


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