• Tony Boita

Homolesbotransfobia ou Silenciamento da arte?


No dia 10 de setembro, mais uma instituição de memória exerceu sua heteronormatividade de forma brutal!

"Mas e você, profissional de museus-patrimônio-memória, o que tem feito no que diz respeito à inclusão LGBT? Sugiro que comece se travestindo para experimentar na pele o brilho de outras representações, como a de Campuzano, e com isso encontrar caminhos que recriem a museologia brasileira, transacionando-a, de fato, em uma museologia efetivamente democratizadora."(Baptista;Boita. 2014)

No dia 15 de agosto foi lançada uma das mais belas e surpreendentes exposições, que após críticas foi fechada de forma "unilateral".

Mas antes de falar dela, gostaria de ilustrar 3 cenas:

Cena 1:

Uma diretora e museóloga negra no interior de Goiás promove a exposição "Do Babado" visibilizando a comunidade LGBT do município. O evento foi um sucesso. Só não agradou a classe conservadora da cidade, que semanas depois custou a exoneração dela.

Cena 2:

O Centro Cultural do Banco do Brasil - RJ promoveu uma belíssima exposição onde duas mulheres lésbicas foram intimidadas de forma lesbofóbica pelos funcionários da instituição. Neste caso, o CCBB-RJ manifestou-se rapidamente, e tornou a violência em crime!

Cena 3:

A exposição QueerMuseum, uma exposição de arte, em Porto Alegre, lançada em 2017, foi 'brutalmente' cancelada após algumas denúncias afirmando que a exposição promoviam X*x**X** com dinheiro público.

- Realidade

Nas três cenas descritas, ocorreram em estados diferentes em momentos distintos. A primeira em 2011, a segunda em 2016 e a última em 2017. Poderíamos, citar outros centenas de casos, que já ocorrem desde 2010. Percebe-se, que diferente dos dois outros casos, a cena 3 foi a que ganhou a maior repercussão e causou indignação dos profissionais de centros culturais, museus e patrimônio.

No entanto, quando ocorreram os ataques nas cenas 1 e 2, nada foi feito e talvez, a cena 3 é o resultado da omissão, destes profissionais.

O espanto/estranhamento se dá no desconhecimento dos profissionais em alegar que "isso nunca existiu", "é um absurdo", ou ainda "precisamos debater". Me questiono, onde essa pessoas vivem? Ou melhor, será que elas nunca viram um veado, sapatão, travestis e trans dando close ?

Eu respondo: -Vivemos em um país, que mais mata, violenta e agride pessoas travestis, transexuais, lésbicas, gays, bissexuais e queer, em especial, negrxs. -Neste mesmo Brasil, se desvaloriza a vida da juventude LGBTQ que está tornando-se a nova vítima do HIV/Aidis. -O país, que mata a pauladas idosxs LGBT!

Ao negar o direito à usufruição da arte, o Estado/Banco nos sentencia, ao silenciamento e a morte!

Exposição QueerMuseum

De fato, as pessoas que trabalham na instituição/banco/centro cultural foram omissas.

É comum nesta temática ter retaliação, conforme apresentando anteriormente. O que não é comum é o diretor abaixar a cabeça e concordar, cancelado, sem diálogo uma exposição!

(Em 4 exposições que trabalhei, ambas deram problema. Felizmente a direção me apoiou!)

O contrário aconteceu, aquelas pessoas que não resolveram ceder a minoria conservadora, foram perseguidos, exonerados e brutalmente criticados, pelos mesmos profissionais que agora manifestam-se a favor da causa. Afinal, lembram-se da CENA 1?

No entanto, é importante dizer, que a atitude da direção, é conhecida por todos, ela é chamada de HomoLesboTransFobia instituicional, ou seja, quando a instituição nega os direito aos TLGB, neste caso - o direito à memória (Lei 11.904) e à cultura (Artº 215 e 216 da Constituição Federal).

Curioso notar, que neste ano, ocorreu o Fórum Nacional de Museus em Porto Alegre, entre tantas pautas nenhuma abordagem de gênero e sexualidade, algo que aconteceu nos últimos encontros desde 2010 (Brasília, Petrópolis e Belém).

Esta exposição , apresentou o que o que os profissionais de centros culturais, museus e patrimônio jamais imaginaram, silenciar uma exposição de arte. De fato, isso é inédito!

Mas sabemos (ou já deveria saber) que os espaços de arte e memória no Brasil (em sua maioria), são excludentes, racistas e homolesbotransfóbicos!

O Brasil que vivemos, tem uma política de Estado, exterminar a diferença, onde quer que ela esteja. Seja na memória, na educação, na saúde, na cultura ou até mesmo na arte!

-

Uma Reflexão:

Por fim, a HomoLesboTransfobia também está presente na arte, assim como, no nosso dia a dia. Infelizmente estes grandes artistas passaram por mais uma violência, mas tenho certeza que não sairão abatidos, e sim fortalecidos!

Mas precisamos parar de manifesta-se somente nas redes sociais, precisamos cobrar das instituições e órgãos competentes e dialogar com as Redes de Museus e Memórias.

O conservadorismo está articulado, nós não! Por favor, entrem em contato com a instituição, compareça a manifestação e mude sua realidade museal!

Exija que os espaços de sua cidade aborde gêneros, sexualidades e raça!

Mas agora responda, e você o que tem feito para mudar essa realidade?

#memóriaqueer #LGBT #TLGB

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