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Sou negra, sapatão e muito poderosa


A primeira coisa que pensei quando percebi que gostava de meninas foi que precisava ir a uma igreja. A criação que recebi era muito fechada. Minha família, no interior de Minas, não tinha qualquer informação sobre gênero e sexualidade. Mas eu descobri logo aos 11, 12 anos qual era minha orientação. Naquela época, não era como hoje, era mais opressivo, havia pouca informação.

A resposta que tive para minha orientação acabou vindo do espiritismo. Entendi Por Ana Muza que gostar de uma outra mulher não me faz uma pessoa esquisita, que isso tem a ver com outras questões. Quando você vai em uma igreja e dizem que isso é do demônio, não me parece uma explicação muito satisfatória.

Mas quando se vai em outra religião e ela mostra um leque de opções que explicam o que o espírito carrega, acaba entendendo melhor. Quando dizem que tudo que é sapatão é da macumba, isso acontece porque o espiritismo costuma aceitar melhor a diversidade do que outras religiões.

Mas não acho que o grande fator que me definiu foram outras encarnações, mas, sim, uma violência sexual que sofri de meu padrasto, ainda na adolescência. Isso me bloqueou. Fico mais à vontade com mulheres. Me sinto mulher e me sinto atraida por mulheres.

O meu primeiro beijo eu estava com 15 anos. Foi escondido, mas eu falei “acho que é isso que eu quero”, pois justamente me senti à vontade. Eu me apaixonei perdidamente por ela. Fazia tudo por ela e tudo queria fazer com ela. Mas depois disso até os 19 não aconteceu nada. Homens para mim não são impossíveis e tive meus filhos. Logo depois que minha mãe faleceu, vi que minha sexualidade não poderia ficar sendo reprimida. Minha mãe desencarnou sem saber que tinha uma filha gay.

O que para mim é triste em parte, pois ela morreu sem saber de uma parte importante de mim, mas em sonho ela veio a mim e tive a oportunidade de contar. Ela me disse “se você está feliz, eu estou feliz também”. Era o aval que queria. Eu acordei chorando de felicidade. Conclui que eu poderia ter a vida que queria pois a pessoa que me gerou me pediu isso.

Já namorei uma menina lady, mulheres mais femininas, com comportamento mais parecido com o meu. Já a minha atual companheira, com quem moro, tem o pensamento mais masculino, ainda que não seja tão bofinho, ela é meio termo. Mas o pensamento dela é totalmente masculino. Ela chega do trabalho e se não tiver a janta pronta a casa cai.

Para ela é assim: se eu estou trabalhando o tempo todo, quando chegar em casa tem que estar tudo pronto, as crianças arrumadas, a mulher perfumada, a casa arrumada, janta na mesa. Ela diz: “ok, vou sair com minhas amigas para jogar futebol, mas você não pode sair com suas amigas”. E eu fico debatendo: “Não, os direitos são iguais! Se eu faço a comida, você lava a louça, você não me paga...”. Estamos morando juntas e tem que haver divisão de tarefa igualitárias.

Preservo muito meus filhos, pois eles podem ser discriminados. Há pouco um garoto foi morto por ser filho de casal gay. Não se trata de vergonha, mas de segurança. Me preocupo que quando eles estiverem maiores as pessoas podem falar coisas que os deixe tristes.

Eu não sei como outras crianças estão sendo educadas por suas famílias sobre essas novas famílias. Um dia minha filha me perguntou porque na escola ensinaram que é errado. Ela prefere dizer que a mãe mora com uma amiga. Mas ela sabe, em casa não temos segredos. Outro dia ela deu um beijo em uma menina. Perguntei a ela o que ela sentiu.

Ela disse que não gostou. Então expliquei que ela provavelmente era hétero, que aquilo havia sido apenas uma experiência, que cada um tem seu perfil. Não é por ela ser minha filha que será lésbica, isso não existe. Já no âmbito de trabalho procuro não falar, pois já fui transferida de função por ser lésbica, prejudicada profissionalmente apenas por ter outra orientação.

Já aqui na comunidade é muito tranquilo. Não tenho problemas. Sou respeitada e respeito todo mundo. Hoje me assumo: sou negra e sapatão, muito poderosa. Sou integralmente assumida, com minha própria espiritualidade, mãe de família e sei que tenho que ter argumento para chegar e sair de um lugar sem que eu e meus filhos sofram preconceito.


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