• Jaqueline Alves

Ser lésbica na favela


Meu nome é Jaqueline, tenho 19 anos e moro na comunidade PPG há quatro anos. Vim do Ceará para o Rio em busca novos horizontes. Trabalho e estudo, me preparando para o futuro. Aqui conheci minha companheira, minha primeira namorada, com quem tenho um relacionamento de três anos. Vivemos juntas há três anos.

Minha memória mais marcante sobre minha identidade foi o momento em que tive que contar para minha mãe sobre meu namoro. Foi um choque muito grande para ela, sobretudo porque ela ficou sabendo por outras pessoas, e não por mim. Acho que isto foi o mais difícil, pois a versão dos outros nem sempre condiz com a realidade.

Foi tudo por telefone, já que ela ainda vive no Ceará, o que dificultou ainda mais. Foi muito marcante, fiquei sem palavras no momento, pois a reação dela foi muito complicada. Ela não aceitou totalmente até hoje, mas me trata bem, o que é o principal.

O período mais difícil, acho, já passou. Imagino que não deve ser fácil para as mães ouvirem seus filhos dizerem que não são héteros. Se fosse eu a mãe, ensinaria aos meus filhos a viver em uma sociedade sem preconceito, iria passar uma visão de igualdade.

Às vezes, eu e minha companheira falamos disso, sobre ter filhos. Hoje em dia há várias possibilidades para as pessoas terem filhos, tipo adoção e inseminação. Quem sabe futuramente, quando as coisas estiverem mais estabilizadas?

Hoje em dia eu sou super tranquila, não tenho nada a esconder, minha vida é um livro aberto. Acho que as pessoas não tem que ficar opinando em relação a vida de ninguém. Falo mesmo. Algumas pessoas tem reações estranhas, mas não me ligo muito.

Nesses quatro anos que vivo no PPG, os moradores tem tido reações diferentes, tem de tudo um pouco. Pessoas mais velhas e religiosas, mesmo que falem que não tem preconceito, olham meio torto. Mas acho que hoje em dia a maioria dos jovens são mais acessíveis, mais abertos à diferença, não querendo interferir uns na vida pessoal dos outros.

Quando uma pessoa não assume quem é, seja o que for, é tão chato, porque de‑ pois de um determinado tempo se aprisiona dentro dela mesma. E isso não que‑ ria para mim.

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