• Por Jean Baptista e Tony Boita

Museologia comunitária LGBT


Estendido entre postes e antenas, um varal de barbante com folhas de papel coloridas penduradas comunica memórias tendo o mar de Ipanema ao fundo, de um lado, e a comunidade vertical no morro, de outro. Coloridas com lápis de cor, palavras como “capoeira”, “arte”, “esporte”, “saúde”, “amor”, “igualdade familiar”, “paz”, “mar”, “arpoador”, entre outras, remetem ao cotidiano da comunidade LGBT da favela Pavão Pavãozinho e Cantagalo (PPG).

É o I Varal de Memórias produzido pela equipe do projeto Memória LGBT do Museu de Favela (MUF) – e é, sobretudo, a primeira conexão pública no Brasil de um projeto que aborda a questão LGBT em um Museu na rua por vias comunitárias, coletivas e econômicas. Enfim, é uma experiência de museologia comunitária, dessa vez LGBT.

O material é resultado da primeira oficina de formação dos integrantes do projeto. Toda a produção foi coletiva, enquanto se conversa, enquanto se desenha, enquanto não se nota que uma oficina está acontecendo, pois é lazer, possui uma meta comum. Buscou‑se incluir palavras que pudessem representar a memória LGBT, sua luta e busca por respeito, sem com isso causar desconforto a ninguém. Optou‑se por investir no que há de belo, de positivo, de construtivo na participação LGBT na comunidade.

Onde estiveram os LGBT do passado e como participaram da comunidade? Quem somos hoje e qual futuro desejamos? Essas e outras perguntas não diretivas, desenvolvidas ao longo da Roda de Conversa, possibilitou depoimentos mútuos, identificações e memórias que se metamorfosearam nas bandeirolas que compuseram o Varal.

Uma estratégia política harmônica, interessada no diálogo construtivo com todos os segmentos sociais tendo em vista uma cultura de paz e respeito à diversidade. Pois museologia comunitária não se faz sem intenção política nascida dos desejos de memória dos coletivos de onde brota.

Por isso é produzida e protagonizada por integrantes da própria comunidade, jamais o inverso, pois são estes os indivíduos com as melhores condições de dimensionar a memória coletiva a qual pertencem. Nada impede a participação de agentes externos ofertando suporte e estímulo, mas o protagonismo, de fato, deve prevalecer ao longo de todo o trabalho.

Há no Brasil o risco incrível de se produzir uma museologia expropriadora disfarçada de comunitária. Isso só se dá entre os velhos bandeirantes e seus agentes coniventes. Mas comunidade fortalecida, empoderada do conceito de museologia comunitária, não permite tal ingresso. No nosso caso, como não moradores do PPG, nos conectados com aquelas e aqueles com que desfrutamos de histórias e memórias comuns aos LGBT de todas as partes.

Embora haja particularidades em cada territorialidade, que não podem nem devem ser desprezadas, há conexões universais que nos unem relativas ao preconceito e a sua superação. Quando observado atentamente as singularidades, descobrimos nossa pluralidade: comunidades LGBT, no plural, certamente é a forma mais adequada. Somos múltiplas comunidades distribuídas em todo o planeta. Logo, nosso território primordial é o mundo, nossa comunidade é planetária. As comunidades LGBT rompem o conceito de comunidade nacionalista, inventada ou midiática.

De fato, não somos frutos midiáticos ou estratégias de Estados, assim como não somos uma comunidade virtual nascida das novas formas de associação que a tecnologia possibilita. Especificamente no debate museológico, construímos conhecimento para sermos caracterizados como uma comunidade em virtude de possuirmos um patrimônio próprio. Temos o pajubá ou bajubá, linguagem comum aos LGBT do Brasil.

Temos nossos circuitos, nossos percursos, permeados de memórias, nossos modos próprios de se expressar. Temos nossa história e memória distinta dos outros grupos sociais. Compomos, contudo, comunidades onde a memória tem sido atravessada pela violência, segregação, silenciamento e esquecimento. Em geral, herdamos fragmentos das gerações anteriores, memórias perdi‑ das em calabouços tomados de vergonhas.

A hereditariedade cultural é comprometida por essa violência, caracterizando‑nos como uma comunidade sem memória, o que contribui para nossa vulnerabilidade social. Vivemos, enfim, sem direito à memória. Hoje nos reconstruímos. Esta revista e este projeto querem encontrar essas conexões entre passado, presente e futuro dessa comunidade que teima em existir. Não somos, portanto, uma comunidade inventada. Somos, sim, comunidades que se reinventam conforme conseguimos sobreviver.

E este é o maior patrimônio das comunidades LGBT: a soma entre resistência e a superação – nossos corpos, nossas vidas. Quando se faz museologia comunitária tendo o corpo e a vida como maior preocupação, não se pode gastar dinheiro de mais com exposição. As estratégias devem ser alternativas pois há questões mais caras nas quais os recursos financeiros devem ser aplicados. Museologia comunitária é de baixo orçamento, utiliza materiais perecíveis e ocupa espaços públicos, tanto físicos quanto virtuais.

No Brasil volumes consideráveis de recursos são gastos em exposições, museus, centro culturais em nome de história, arte e memória. Na verdade, resultam em prédios custosos, altos gastos expositivos, pesados sistemas de refrigeração, acervos onde o conceito de historicidade vinculado à mercantilização do objeto encarece a segurança, somando‑se as faixas amarelas proibitivas, os horários inacessíveis a trabalhadores, entre outras características excludentes que afugentam visitantes provindos de comunidades – há algo excessivamente privado, enfadonho e ecoante em tamanha solidão.

Nestes espaços, não há vida, nem corpos, nem comunidades. Pois a vida está na rua, sendo este o lugar da museologia. Quando se fala de democratização dos espaços públicos, é pela via comunitária que se torna mais viável, sendo esta uma das mais eficientes colaborações da museologia para a sociedade.

Para poder contribuir à sociedade, a museologia precisa estar longe do eco. No Varal de Memórias, optamos por incluir a palavra “segurança” desenhada em arco‑‑íris. No país que mais mata LGBT no mundo, MUSEOLOGIA LGBT encontramos uma comunidade onde isso não existe. Inseridos em um sistema de comunidade periférica, todos os LGBT presentes no projeto apresentaram uma realidade contrária ao do padrão nacional.

De fato, experimentamos esta realidade. Ali dormimos de janelas abertas – o que é impensável para um LGBT no Rio ou em qualquer lugar em um contexto de casas invadidas, apedrejadas, violentadas. Também nos hospedamos na casa de uma família que não possui LGBT entre seus integrantes, mas ali fomos recebidos e tratados como membros da família, em uma manifestação de acolhimento que muito raramente recebemos.

Vimos também outros LGBT transitando livremente na favela, ocupando postos importantes, desenvolvendo múltiplas atividades, envolvidos, respeitados, vivos. Claro que há questões veladas, mas estas longe estão de se configurarem em um padrão no PPG. Poucas vezes nos sentimos tão seguros.

E eis o que a museologia comunitária tem de melhor: ela permite que as comunidades nos eduquem, nos indiquem caminhos para o convívio da diferença, onde é possível os corpos e vidas estarem seguros pois todos estão conectados. Comunidade, propriamente, não fere a quem pertence.

O Varal de Memórias do MUF, é portanto, uma exposição de museologia comunitária composta não apenas pelos integrantes do projeto. As belas palavras, as profissões apresentadas, as distintas contribuições ali inseridas, representam o respeito e a diversidade possível no PPG.

O Varal de Memórias, ao fim, é uma boa lição muito mais para o restante do país do que propriamente para a comunidade do PPG. O Rio de Janeiro está de parabéns por ter o PPG em sua geografia neste aniversário. E mais uma vez, é a comunidade que nos ensina a viver.

#Museologia #MuseologiaComunitária #MuseologiaSocial #Sóciomuseologia #MuseologiaComunitáriaLGBT

© 2016 REVISTA MEMÓRIA LGBTIQ+

Brasil

Entre em contato: contato@memorialgbt.org