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ENTREVISTA COM YONNE KARR


Yonne Karr nasceu na Galeria Alaska, em Copacabana, território da comunidade LGBT desde fins da década de 1950 até os anos 1990, período em que concentrou bares, boates, cinema, teatros e shows que alcançaram fama internacional. Ali também nasceu Rogéria, Jane de Castro, Marquesa e Roberta Close, entre outras, em boates como Stop, Sótão e Leopardos. O nome lhe foi dado por sua madrinha, Vivian Karr - o sobrenome remete à cantora Vikky Carr . De lá para cá, Yonne Karr tornou-se uma estrela transex reconhecida por sua beleza e talento.

Sua trajetória está permeada de memórias não contadas. O processo de autodescoberta em tempos perigosos, a conquista pelo respeito na comunidade do Pavão Pavãozinho e Cantagalo (PPG), onde reside desde o nascimento, e a carreira nos espaços culturais significativos do Rio de Janeiro, a transforam em uma detentora de memórias fundamentais para a compreensão da história das trans mulheres negras no Brasil.

Memória LGBT: Como você prefere ser chamada?

Yonne: Aqui na comunidade todos me chamam de Yonne. O sobrenome uso somente no mundo gay.

Memória LGBT: Como é o preconceito do PPG com as pessoas trans?

Yonne: Nasci e fui criada aqui. O preconceito na comunidade existe. Só que a pessoa tem que fazer por onde para não sofrer. No meu caso sempre fiz por onde, sempre dei o res‑ peito para ser respeitada. Tive alguns probleminhas básicos, mas nada que se agravasse. as pessoas me respeitam muito, até mesmo pelo tempo que vivo aqui. Hoje, ao menos para a minha pessoa, o preconceito na comunidade não existe.

Memória LGBT: Como é ser trans de religião afro?

Yonne: Eu não tive empecilhos. Tenho 31 anos de santo, comecei quando tinha 16, minha mãe de santo me apoiou muito. Dentro da minha casa de santo eu sou Dofono de Iansã. Sou babalorixá e estudo muito até hoje. Quando entro na minha casa, a Yonne fica na porta, porque perante meu santo eu sou um ser masculino. Sou uma pessoa séria e se‑ vera na religião!

Memória LGBT: Por anos você fez shows na noite do Rio, conte para nós onde já esteve.

Yonne: Boates que comecei a trabalhar foram a Le Jardim e a Sótão, na Galeria Alaska, e a Papagaio na Lagoa. Boate Encontrus, Boêmio Cabaret, Boate Casanova nos Arcos da Lapa, foram outras que por anos atuei. Todas não existem mais. As de hoje são a 10140 em Jacarepaguá, Papagei em Madureira, Casa Grande em Bangu e Le Boy. Participo também de alguns eventos da Turma Ok, inclusive vou participar em 12 de setembro do Show concurso que irá ocorrer na Casa das Beiras na Tijuca.

Memória LGBT: Você participou do Miss Gay em Juiz de Fora, um dos mais antigos festivais do Brasil, reconheci‑ do como patrimônio cultural da cidade, entre outros concursos. Conte como foi sua participação e os prêmios que recebeu.

Yonne: Em juiz de fora eu só participei do show, porque lá apenas transformistas podem concorrer, travestis e transexuais não concorrem. Já recebi o Beleza Negra, Miss Glamour, Rainha do Carnaval da Boate Casa Nova, entre outros.

Memória LGBT: Quais são seus próximos objetivos?

Yonne: Eu gostaria de organizar projetos e shows, pois ainda não aconteceu nada as‑ sim na comunidade.

Memória LGBT: Qual (Quais) memória(s), história(s) e objeto(s) você gostaria de expor em um museu?

Yonne: Eu gostaria de ex‑ por algumas coisas minhas em museu. Fotos e vídeos de meu trabalho. Poderia também ser alguma roupa marcante, mas como eu sempre reformo minhas roupas, nunca tive algo muito antigo para expor.

REVISTA MEMÓRIA LGBT – ANO III – EDIÇÃO IX – Agosto /2015 – P.8-10- ISSN 2318-6275 - WWW.MEMORIALGBT.COM

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