• Jéssica Borges

As memórias de uma lésbica na favela


Ser lésbica pode ter mais de um simples significado. Existem lésbicas que percebem suas vivências como uma das diferentes formas de amar; existem aquelas que veem a lesbiandade como ato político. Eu vejo como um misto dos dois.

Subindo as escadas de um morro, pra mim desconhecido, até então não sabia exatamente o que encontrar. Existem muitos mitos sobre as lésbicas; muitas lendas urbanas que nós temos que superar para encontrar nossas próprias identidades.

Enquanto eu crescia, achava que só poderiam existir as lésbicas masculiniza‑ das, as “caminhoneiras”. Já sabia que isso eu não era eu, ao menos, não por inteira. Foi ao conhecer melhor a vivência LGBT que percebi toda a diversidade lésbica existente: as femininas, as masculinas, as intermediárias; as lésbicas políticas, as lesbofeministas...

Isso pra não falar sobre preferências sexuais e performances comportamentais que flutuam entre o feminismo e a reprodução de papéis e estereótipos de gênero. Dentre mitos e verdades, diversas realidades e, entre elas, não saberia dizer o que poderia encontrar subindo o PPG.

O meu primeiro encontro me trouxe sorrisos: a primeira representação das lésbicas desses morros foram as minhas companheiras mobilizadoras do projeto Memória LGBT no Museu de Favela PPG (MUF).

Negras, brancas, universitárias, artistas, lutadoras, mães. Cada uma um ícone de diversidade, cada uma abrigando uma estrangeira como melhor amiga; demonstrando o tipo máximo do carioca que sorri, abraça e trata com delicadeza. Lésbicas amam mulheres.

Amam a estética, os gestos, o sexo. Isso não muda do asfalto para a favela; isto não muda de um Estado para outro ou de um país para o outro. E, por mais que não percebam, lésbicas transgridem as normas.

A lésbica que busca os filhos no colégio mostra a sua existência, enfrenta preconceitos expostos e os implícitos, ensina suas crianças sobre amor, respeito e tolerância; os torna multiplicadores dessas ideias tão simples e tão revolucionárias para se criar um mundo mais bonito e menos hostil.

A lésbica que ocupa postos atléticos mostra a força física e psicológica das mulheres; a lésbica artista vê e expressa a beleza do mundo. Todas percebem o mundo a sua maneira. E são vistas, admiradas. Elas entregam as notícias aos moradores das comunidades, elas os ensinam como se defenderem em situações de perigo iminente.

Elas colorem o mundo quando ele parece feio, pesado e violento demais. Elas são as mulheres, a favela, as lésbicas. Elas são o mundo melhor e este novo mundo está em cada uma delas.

Do alto do morro ou no frio do asfalto, nós somos os rostos que mostram que um amor de mulheres para mulheres é real. Nós mostramos que é possível viver e amar, mesmo sendo entre mulheres. Nós somos humanas; nós somos lésbicas.

Nós somos amor e rebelião.


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