• Lufe Steffen

“São Paulo em Hi-Fi”: uma trajetória atemporal na memória LGBT


Um dos grandes clichês sobre o Brasil é de que trata-se de um país sem memória. Se isso é verdade de maneira geral, o que dizer da história da comunidade LGBT local? Pois nos últimos anos esse cenário vem mudando. Diversas iniciativas ( no cinema, no teatro, na literatura, em festivais, mostras e exposições ) têm se dedicado a resgatar o baú de memórias do universo LGBT brasileiro. E uma das ações mais midiáticas nesse sentido tem sido o filme “São Paulo em Hi-Fi”. O longa-metragem é um documentário histórico que vem fazendo uma curiosa e surpreendente carreira desde sua 1ª estreia, em novembro de 2013. Na ocasião, o filme foi exibido dentro do Festival Mix Brasil, e passou a circular em festivais de cinema gay ( no Brasil e no exterior ), recebendo alguns prêmios – como o de Melhor Documentário pelo Júri Popular no Queer Lisboa, em 2014. No ano de 2015, o filme ficou longe dos holofotes, pois estava sendo remontado – a obra recebeu um apoio para ganhar nova finalização, e assim uma nova versão foi produzida ( as mudanças aconteceram na parte técnica de som e cor, além das inserções de arte e, principalmente, grandes alterações na trilha sonora ). O filme ganhou sua versão definitiva, que estreou oficialmente em circuito no CineSesc, em São Paulo, em 19 de maio de 2016. De lá para cá, o longa segue ininterruptamente em cartaz. Após sete semanas consecutivas em São Paulo, o documentário passou a ser exibido em outras cidades: Santos, Ouro Preto, Mariana, Belo Horizonte, Rio de Janeiro, Belém, Salvador, Porto Alegre. E outras cidades já estão programadas. Um feito e tanto para um filme que acumula três pontos “negativos”, quando se trata de atrair público para as salas de cinema: é um documentário, é brasileiro, e tem temática LGBT. Mas o sucesso do longa mostra que o público interessado na história e na memória do universo gay está cada vez mais forte e presente. E nesse quesito “São Paulo em Hi-Fi” mostra a que veio: no filme, assistimos a uma detalhada linha do tempo sobre a cena noturna LGBT da cidade, iniciando em 1960 e encerrando em 1990. São três décadas configurando uma “era de ouro”, quando a noite gay paulistana esbanjava glamour e luxo com seus exuberantes shows de transformistas ( espetáculos inspirados diretamente nos cabarés parisienses do século XX ), além do deboche e da irreverência das memoráveis “montações” – as mais lendárias que o filme resgata são Darby Daniel chegando à boate Medieval vestido de Branca de Neve, dentro de um caixão de vidro; e claro, a inesquecível Wilza Carla chegando ao mesmo Medieval, mas cavalgando um elefante em plena Rua Augusta. O filme costura a narrativa de depoimentos dos sobreviventes do período com cenas de shows nas casas noturnas da época ( como o próprio Medieval, além da Corintho, Homo Sapiens e Nostro Mondo ), criando assim uma estrutura de “filme musical”, que se aproxima do clássico “Cabaret” ( 1972, de Bob Fosse ). E dessa forma monta um painel abrangente que narra a vida gay no período, tendo como pano de fundo a ascensão, apogeu e queda dessa tal era de ouro, que enfim foi derrubada por um inimigo invisível e na época extremamente poderoso: a epidemia da Aids, que devastou o planeta a partir de meados dos anos 80. Toda essa epopeia é mostrada no filme, que defende a ideia de que, na virada dos anos 80 para os 90, essa noite gay clássica sai de cena, abrindo espaço para que, nos 90’s, surja uma nova cena, encabeçada pelo movimento clubber, a explosão da música techno e das raves, o nascimento da internet e a proliferação da vida eletrônica e virtual – uma cena que pavimentou o caminho para a realidade que todos vivemos hoje. “São Paulo em Hi-Fi” segue sua jornada de resgate dessa memória, e para conhecer o filme, basta acompanhar sua página no Facebook ( https://www.facebook.com/saopauloemhifi ). Lá, são divulgadas as próximas sessões, datas, cidades, além de informações sobre o lançamento do filme em DVD – previsto para o segundo semestre do ano.

REVISTA MEMÓRIA LGBT – ANO II – EDIÇÃO X – Setembro /2016 – P.12-13- ISSN 2318-6275

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