• Pedro Augusto Chaves¹

Dzi Croquettes: entre pelos, purpurina e teatralidade.


“Nem homem, nem mulher. Gente”

O Brasil dos anos 60 foi o bastidor que favoreceu o nascimento de uma das maiores companhias artísticas da história do País. E dos bastidores logo passaram ao proscênio, como procuraremos apresentar aqui.

Em um dos seus momentos mais rigorosos, com a instauração do Ato Institucional nº 5 (13.dez.1968), o aumento significativo da censura, do medo e da violência, surgiu um grupo formado por homens que marcaria os periódicos daquela época e as cabeças daqueles que, por ocasião dos espetáculos, puderam presenciar sua expressividade. Eram homens com corpos definidos e cobertos de pelos, mas que ao mesmo tempo entravam em cena trajando acessórios considerados femininos, como saltos altos, cílios postiços e muita purpurina. As cenas eram distribuídas entre os integrantes e apresentavam um grau de improviso bastante peculiar, considerando que as falas e intervenções eram guiadas tanto pelo humor do ator em cena, quanto pelas reações do público que o assistia. Nelas eram questionados modelos sociais, religiosos e institucionais, tais como os estereótipos de homem e mulher, a Igreja, através de uma freira que esconde embaixo do hábito uma lingerie super ousada, do mesmo modo que a própria figura do Hitler, líder do nazismo na Alemanha, que entrava com um capacete militar coberto de purpurina e um vestidinho curto. A estética que alfinetava os papéis sexuais estabelecidos socialmente foi considerada por muitos como o tema central do grupo, tendo destaque nos comentários do público em geral e, principalmente, nas publicações da imprensa interessada. No entanto, como destaca a antropóloga Rosemary Lobert em sua dissertação A Palavra Mágica: a vida cotidiana dos Dzi Croquettes, defendida em 1979 (Unicamp), a expressão dos gêneros e dos papéis sexuais será apenas um dos elementos conceituais do grupo, não podendo abarcar assim sua totalidade.

A FAMÍLIA

A família era composta por 13 homens, dentre eles Wagner Ribeiro, Lennie Dale, Cláudio Gaya, Ciro Barcelos, Reginaldo de Poli, Bayard Tonelli, Rogério de Poli, Paulo Bacellar, Benedictus Lacerda, Cláudio Tovar, Carlinhos Machado, Eloy Simões e, mais tarde, o cenógrafo Américo Issa. O termo família foi atribuído pelos próprios integrantes, uma vez que após a formação do grupo o cotidiano de cada um estava intimamente incorporado com os projetos e as ideias acerca do espetáculo. O papel de cada um no grupo remetia à estrutura familiar de lares e comunidades comuns, onde a mãe (Wagner) desempenhava a tarefa de acolher todos os integrantes e idealizar o conjunto, o pai (Lennie Dale) era responsável por determinar as tarefas e supervioná-las; as tias, por outro lado, eram responsáveis pelas finanças e dessa forma seguia para os demais membros da família. É interessante pensar que naquele tempo os preceitos sobre a formação familiar já eram questionados, considerando que as relações não se davam exclusivamente entre parentes de sangue ou mesmo entre um homem e uma mulher. Além disso, como salientou Rosemary, a amizade seria um eixo fundamental no recrutamento dos integrantes que formariam o grupo e, consequentemente, o espetáculo.

Apesar do vínculo pessoal entre os integrantes ter sido esboçado antes mesmo da formação do espetáculo, o histórico de cada um apresenta realidades distintas do que normalmente é imaginado. Wagner, nascido na cidade de Bebedouro, interior de São Paulo, seguiu a princípio os desejos da família e matriculou-se na Faculdade de Filosofia e Medicina com o intuito de estabelecer uma carreira médica, onde, por sua vez, decidiu finalmente transferir seus estudos para a Escola de Belas Artes e o Conservatório Nacional. O ambiente estudantil foi o local de encontro com outros dois integrantes, Roberto, de 20 anos, e Claudio Gaia, de 24 anos, o primeiro ex-aluno de um colégio militar e, naquele momento, empregado bancário, e o segundo, bolsista do Conservatório. Como relata a antropóloga, durante cerca de dez anos após a conclusão dos estudos suas experiências artísticas foram muito mais felizes no espaço privado do que pelas vias formais da classe artística, descobrindo as nuances da representação cênica a partir do ensaio de personagens e fantasias fictícias.

Desmotivado com o cenário comercial oferecido pela butique, Wagner, na época com 38 anos, encontra nos amigos Reginaldo e Bayard uma maneira de acalentar suas crises existenciais. Isso se dava no encontro eventual e corriqueiro num bar em Copacabana (RJ), onde os amigos se reuniam para conversar sobre a vida e planejar os próximos passos de suas trajetórias artísticas. Este seria o encontro que ficaria na memória dos integrantes como símbolo do surgimento do grupo e, sobretudo, do nome Dzi Croquettes. Entre as mais variadas versões sobre a origem do nome, a que se tornou mais coerente foi a seguinte: “Eu [Bayard] sempre curti muito o pronome inglês the, [que] também poderia ser o zê português. E como a gente no bar comia croquetes, porque não batizar o grupo [de] Dzi Croquettes”? (Veja, 1973). E assim foi possível explicar o nome que tanto intrigava as pessoas. Reginaldo, de 23 anos, ainda acompanhado pelo traje formal de terno e gravata, estava vinculado ao meio artístico por influência de seu irmão Roberto, que participava como cantor de auditório e fazia pontas em filmes e peças de teatro na época. Bayard, com 24 anos, encerrou no terceiro ano sua graduação em arquitetura para se dedicar a vida de modelo fotográfico e ator, firmando o translado São Paulo–Rio de Janeiro. Segundo Wagner, essa era a oportunidade de trabalhar com algo que transbordasse suas “próprias medidas”, fazendo teatro, música e também organizando a butique, ou seja, unindo “o útil ao agradável”. Paulo, conhecido como Paulette, na época com 18 anos, era encarregado inicialmente das “relações públicas” como, por exemplo, a divulgação e venda das roupas de couro produzidas por Wagner aos artistas de televisão. Sua energia extremamente divertida foi o que impulsionou a sua participação no grupo. Ciro, com 19 anos na época, teve em seu favor as aulas de dança feitas quando ainda morava no Sul. Em São Paulo, foi recolhido por um futuro integrante do grupo que o levaria para o Rio de Janeiro, onde conheceu Bayard e Rogério e, posteriormente, o universo de Santa Tereza, residência de Wagner. Lennie Dale já era conhecido no Brasil por suas participações em programas de televisão e sua dança irreverente. Nascido no Brooklyn (NY), filhos de imigrantes italianos, na época do espetáculo com 38 anos, começou a dançar aos cinco. Benedictus Lacerda, conhecido como Benê, nasceu no Rio de Janeiro e tinha 24 anos. Não tinha propriamente um histórico artístico consolidado, possuindo como experiência alguns cursos de economia política, três anos de administração e experiência de empregado bancário. Cláudio Tovar, inicialmente vinculado ao conjunto denominado tietes (apelido dado pelo grupo aos seus seguidores mais fiéis e que, de certa forma, se infiltravam na rotina do grupo), com 29 anos, foi pós-graduado em arquitetura e teve algumas experiências como cenarista e desenhista. Entrou no grupo depois de se relacionar mais intimamente com os membros do grupo e pedir para participar de uma apresentação, oportunidade que inaugurou sua carreira artística dentro do Dzi. Américo Issa inicialmente entra no grupo como camareiro do Lennie e, por fim, conquista um espaço fixo nas apresentações já que, vira e mexe, precisava cruzar o palco para acrescentar algo no cenário ou no figurino, coisa que fazia sempre com muita classe e criatividade. Carlinhos, carioca, conhecido também como Lotinha, integra o grupo dos novos integrantes. Na época com 29 anos, teve uma carreira artística permeada por um espetáculo que viajou a Europa e conservava uma amizade com Lennie, desde que dançaram juntos em anos anteriores. A composição do grupo é fixada, pouco tempo depois, com a entrada de Eloy, de 22 anos, que vinha de Bauru, interior de SP, e trazia a experiência com o grupo de teatro “Transa Nossa”. É importante destacar que apesar dessa apresentação estabelecida pelas profissões anteriores e as carreiras anteriormente trilhadas, o grupo enfatizava um caráter desprendido dessas formalidades e evitava um enquadramento rígido e categorias ordinárias.

O ESPETÁCULO

O teatro nesse período sofria com a insegurança de que até o último minuto o espetáculo pudesse sofrer alterações pela censura ou mesmo ser proibido, uma vez que esse espaço carregava uma atmosfera de subversão em termos político, semelhante, ou ainda maior, a de produção de cultura, como destacou Rosemary Lobert. É justamente neste momento que surge o Dzi Croquettes munido de crítica, purpurina e paetês, contrariando as categorias sociais e propondo uma transformação comportamental capaz de ultrapassar as barreiras do tempo e do espaço.

No início era idealizado um “conjunto musical” que aproveitasse a criatividade e as experiências carregadas pelos mais variados artistas que compunham o grupo, artesões, pintores, músicos, dançarinos, entre outras áreas. Apesar da tão sonhada independência econômica ser um desafio, o tempero contava com muitas roupas, maquiagem e purpurina, características que surpreenderiam o público num primeiro contato uma vez que esses artifícios não eram mais utilizados a tempo. O projeto teve maior destaque após a participação do coreógrafo Lennie Dale, responsável por trazer as técnicas de dança e um ritmo acalorado para o grupo. Ao contrário do que se esperava de um teatro brasileiro, que na época se afirmava pela difusão de peças e artistas excepcionalmente nacionais, o espetáculo trazia um coreógrafo norte-americano e era carregado de falas nos mais variados idiomas, dado que a maioria dos integrantes dominava o inglês, o francês e o espanhol.

Os atores criaram uma indumentária que contestava todos os padrões socialmente vistos, seja de figurinos de teatro ou de fantasias extravagantes. Tudo apontava para a dissonância criada entre os corpos masculinos e as roupas tidas como femininas. Como relatou Sábato Magaldi, “os artistas se assumem e se criticam, marginalizam-se no undergroud e caçoam do gênero, vestem-se de mulher mas não se depilam ostentando largas barbas” (Jornal da Tarde, 1973). A constatação de que aquilo não poderia ser interpretado pelas vias racionais pode ser uma das chaves principais do grupo, que prendeu a atenção do público e da imprensa e fez com que tanto sua forma quanto seu conteúdo fossem altamente criticados por todos.

Pensando na elaboração da peça, os atores apresentavam os personagens por um misto de características pessoais e elementos fantasiosos. As intenções ultrapassam muitas vezes o limite do real, o vestuário extravagante, o rosto coberto de purpurina e os cílios enormes destoavam da voz grave que saia da boca dos atores. Uma coisa era certa, o espetáculo não tinha destino, nem sexo definidos. A apresentação contava também com um repertório musical carregado de emoção e sensibilidade. Como é o caso da cena de bolero feita inicialmente por Lennie Dale e Claudio Tovar, transbordando os sentimentos pessoais em meio aos passos e a coreografia ensaiados.

Uma das cenas do espetáculo que pode ser considerada uma das mais marcante é a que os atores entravam em cena vestidos com asas enormes feitas de tecido, flutuando pelo palco ao comando de um dos integrantes que narrava o voo com um toque internacional. A leveza do movimento das asas contrastava com os corpos desnudos e peludos dos atores em cena, deixando o público extasiado com a beleza e a simplicidade da apresentação. O espetáculo foi apresentado nas principais capitais do País, onde o misto de sucesso e estranhamento contribuiu para que o grupo viajasse à Europa, quebrando inclusive as barreiras impostas pelas fronteiras.

PURPURINA PRA TODO LADO

Na Europa, o espetáculo teve uma recepção acalorada, mesmo que em companhia da incompreensão. Muitos artistas puderam testemunhar o paradoxo entre o sucesso e a proibição. Após o espetáculo ser censurado em Paris, a atriz e cantora Liza Minnelli apoiou o grupo publicamente, provocando uma comoção geral no universo dos artistas e da mídia internacional.

Os estilhaços do trabalho e da irreverência do grupo atingiram muitos artistas, influenciando na construção de personagens, estilos e, consequentemente, em suas trajetórias artísticas. Dentre eles, é possível apontar como exemplo o cantor Ney Matogrosso e o grupo o qual fez parte em meados na década de 70, Secos e Molhados, onde percebe-se traços dos Dzi na maquiagem que cobria seus rostos, no figurino que expressava a mistura dos gêneros e, claro, na interpretação que contagiava os palcos e a plateia. No teatro e na atuação, a purpurina alcançou artistas como Miguel Falabella, Jorge Fernando, Cláudia Raia, Betty Faria e tantos outros que tiveram ao menos um contato breve com o espetáculo. Não podemos esquecer das mulheres que compunham o grande grupo de tietes e marcavam presença em todas as apresentações, sempre vestidas e maquiadas como se a qualquer momento fossem participar do espetáculo. Desse estilo de vida nasceu As Frenéticas, grupo formado por mulheres que transmitia a expressividade criada pelo Dzi através das músicas que agitaram os bailes da época, como por exemplo, “Abra suas asas”, grande sucesso que ultrapassa gerações. Além disso, o grupo foi responsável por resgatar um vocabulário bastante utilizado nos espaços marginalizados da época, criando assim um dicionário Dzi Croquettes e eternizando expressões como “Tá boa, santa”, “Te contei”, entre outros dizeres que de uma forma ou de outra cruzam os caminhos dessa arte. A adesão foi sem dúvida nenhuma unânime, seja nas trocas entre os artistas e o público ou nas manifestações sociais que rodeiam o trabalho, o lazer, as relações amorosas e as vidas cotidianas.

Atualmente é possível conferir um pouco desse encanto através do documentário que leva o nome do grupo, produzido em 2009 pela dupla Tatiana Issa, filha de Américo, e Raphael Alvarez. O projeto inclui entrevistas exclusivas com alguns integrantes do grupo e com aqueles que vivenciaram a magnitude desse estilo de vida. As cenas de abertura sintetizam os pontos de relação entre a ditadura militar e produção artística. A iniciativa surgiu da surpresa por parte dos organizadores após pesquisar sobre o conjunto e não encontrar muita coisa. No ano passado o Dzi ressurgiu com a proposta dirigida por Ciro Barcelos, dispondo de elementos da primeira formação, mas com uma repaginada relativa aos dias atuais. Essa lacuna precisa ser preenchida por reflexões sobre o grupo, o espetáculo, a teatralidade ou mesmo… por purpurina!

¹pe.augustochaves@gmail.com

REVISTA MEMÓRIA LGBT – ANO II – EDIÇÃO X – setembro /2016 – P.06-11- ISSN 2318-6275

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