• Paulo Cogo¹

AS RELAÇÕES ENTRE CULTURA, MEMÓRIA E IDENTIDADE LGBT


Apesar dos avanços inegáveis ocorridos nas últimas décadas em nosso país em relação à conquista de uma cidadania dos indivíduos que compõem o grupo LGBT, especialmente lésbicas, gays, bissexuais, travestis, transexuais e transgêneros, o preconceito em relação às pessoas que expressam orientações sexuais diferentes da heterossexual ainda é enorme.

Devido a esse grande preconceito manifestado em todas as formas de fobias que especialmente os indivíduos heterossexuais expressam contra os membros da comunidade LGBT, o medo, a vergonha, a invisibilidade escolhida por medo ou conveniência ou imposta tem caracterizado a maioria dos seus integrantes.

Ocorre que enquanto a maior parte dos membros do grupo LGBT continuar portando diferentes tipos de medo, pudor ou de culpa pela sua orientação sexual a construção de uma cultura e identidade de grupo assertiva, afirmativa e positiva se torna impossível.

Dentro desta perspectiva, é possível, hoje no Brasil, falarmos da existência de uma “cultura LGBT”? A resposta é afirmativa. Porém, a realidade dessa cultura, ou melhor, ainda uma “subcultura” ou “cultura marginal” é paradoxal. Utilizo aspas ao me referir a essa cultura para enfatizar esse paradoxo, no meu ponto de vista um falso paradoxo, uma vez que é possível tentar entende‑lo ou explica‑lo, o que vou buscar fazer a seguir.

Quando falo em paradoxo ou falso paradoxo, me refiro ao fato de que a existência, crescimento e fortalecimento da comunidade LGBT no Brasil hoje é uma realidade, um fato social relevante, de acordo com a análise sociológica, basta olharmos as estatísticas oficiais a respeito ou os estudos sobre o tema realizados pelas grandes instituições acadêmicas no Brasil.

Porém, grande parte desse crescimento se deve, por um lado, a conquistas de somente parte do grupo LGBT, especialmente gays e lésbicas que têm conseguido um maior espaço na mídia e na sociedade devido a um aumento da conscientização das pessoas que compõem esses grupos e de parte da parcela mais esclarecida da nossa sociedade que tem apoiado as reivindicações destes grupos e auxiliado através de seu poder de influência social.

No entanto, a outra parte do grupo LGBT, travestis, transexuais e transgêneros, apesar de algumas conquistas relevantes obtidas nos últimos anos, seguem em uma condição de invisibilidade e fragilidade social absurda.

Por outro lado, parte do fortalecimento do grupo LGBT se deve apenas por um viés econômico, ou seja, a nossa sociedade tem concedido espaço a gays e lésbicas pela constatação do grande poder de consumo desses grupos sociais, identificado por expressões como “pink money”, ou seja, uma forma de “inclusão e reconhecimento social” às avessas, não pela participação social, mas pela relevância no processo de consumo de bens e serviços.

Nada contra a inserção das pessoas do grupo LGBT na denominada “sociedade de consumo”, uma vez que esse tipo de inserção é uma parte do desenvolvimento da cidadania, porém a inclusão no consumo deveria ser uma decorrência da inclusão e reconhecimento social e não o inverso.

Assim, é possível falarmos de uma cultura LGBT, no sentido de que existe hoje um conjunto de práticas sociais, que incluem rituais, comportamentos, linguagens, reações emocionais condicionadas e valores próprios deste grupo, porém essa cultura altamente heterogênea, rica e diversificada ainda encontra‑se à margem da cultura oficial, dominante ou instituída.

O número de profissionais, manifestações culturais e produtos culturais realizados integralmente ou direcionados aos membros do grupo LGBT ainda é muito pequeno se comparado ao de produtos culturais heteronormativos, ou seja, voltados predominantemente ao público heterossexual.

Para que essa realidade se transforme é necessário que os membros do grupo LGBT se empoderem, ou seja, que reconheçam o seu poder pessoal de ser, existir e realizar a partir da sua orientação sexual. Somente através do reconhecimento, construção e afirmação de uma identidade de gênero e sexual positiva e apreciativa é possível contar uma história pessoal, uma história de vida, uma história de grupo. Sem uma identidade pessoal clara, transparente, forte e assertiva é impossível contar a própria história e menos ainda lutar pela afirmação dos próprios direitos e dos direitos dos grupos a que se pertence.

A construção de uma identidade de gênero e sexual positiva e apreciativa passa pela identificação com outras pessoas que possuem identidades semelhantes e que servem de referência nesse processo. Nesse sentido, contar a história e trajetória dos grandes nomes do movimento LGBT, bem como dos principais eventos e realizações no Brasil é essencial para construir uma memória coletiva e um sistema de referência cultural para os outros membros do grupo LGBT.

E para que isso se torne um fato é fundamental a construção da memória LGBT, através do levantamento e registro da história do movimento LGBT no Brasil, incluindo todas as formas de manifestações e expressões materiais e simbólicas existentes desde o surgimento do movimento.

Para este fim torna‑se imprescindível a construção da historiografia e trajetória do movimento LGBT em nosso país, a partir da pesquisa minuciosa de seus fatos e personagens históricos, mortos e vivos, bem como da herança cultural deixada por seus pioneiros, incluindo mártires, heróis e personagens que tiveram seu peso diminuído ou que foram esquecidos pela historiografia oficial.

Da mesma forma, é fundamental que os cursos de história, bem como as demais licenciaturas, os cursos de museologia, e todos os demais campos que abordem a educação e memória que incluam em seus currículos as relações de gênero como categoria fundamental de análise histórica na historiografia contemporânea e não apenas como uma categoria transversal como tem ocorrido na maioria das nossas instituições de ensino acadêmico de história no Brasil.

1PAULO COGO é psicólogo pela UFRGS, Mestre e Doutor em Sociologia pela UFRGS, Especialista em Administração de Recursos Humanos pela PUCRS, Especialista em Psicologia Transpessoal pela UNIPAZ; Bacharel em Direito pela PUCRS, Bacharel em Comunicação Social - Publicidade e Propaganda pela PUCRS; Professor Adjunto do UniRitter, ministrando aulas para os cursos de Psicologia, Publicidade e Propaganda e Administração; Atua como Psicólogo Afirmativo auxiliando os membros do grupo LGBT na construção e afirmação de uma identidade de gênero e sexual positiva e afirmativa e como Personal Coach na área de planejamento e gestão de carreira.

REVISTA MEMÓRIA LGBT – ANO II – EDIÇÃO III – Abril /2014 – P.08-09- ISSN 2318-6275

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