• Jean Baptista¹ e Tony Boita²

Ode a Giuseppe Campuzano


Não queremos falar da dor que nos provoca a morte de Giuseppe Campuzano, fundador do Museu Travesti (Peru). Queremos nos travestir de Campuzano, usar maquiagem incaica, manto de plumas da aves sagradas e peruca de longos fios negros para pensar a imensa contribuição que deixa não só para seu país de origem, mas para todos nós, profissionais de museus interessados na democratização da memória no Brasil.

Há dez anos, Campuzano criou uma vivência museal que se tornou um marco na museologia LGBT: El Museu Travesti possuía no corpo do próprio diretor pilares de seu acervo e na história do Peru os fundamentos da natureza trans dos museus. “O Museu Travesti do Peru nasce da necessidade de uma história própria”, diz Giuseppe no site do Museu, “ensaiando uma arqueologia das maquiagens e uma filosofia dos corpos para propor uma elaboração de metáforas mais produtivas que qualquer catalogação excludente”. Na vanguarda do debate, Campuzano traveste‑se em Virgem Maria, em deusas incaicas, em virgens destinadas a sacrifícios ritualísticos de antigos povos indígenas. Na metáfora, denuncia o racismo e a transfobia católica, estatal, peruana, latino‑americana, o não‑lugar de cada um de nós LGBT. E o fez respondendo toda brutalidade com uma exposição exemplar, com cores vivas, com figurinos extraordinários, com pesquisas antropológicas e com discursos de união/paz que encontravam seu próprio corpo em performances que não podem ser esquecidas.

Embora a transfobia tenha determinado a exclusão do pensamento trans da produção museológica, Campuzano demonstrou que a capacidade de transicionar esta na essência da museologia. Nos museus, transicionamos patrimônio, reencontramos suas identidades em espaços contemporâneos e travestimos os objetos com novos sentidos, sentidos contemporâneos. O Museu, é de fato, um espaço travesti.

Das musas gregas (em verdade, dos musos travestidos no teatro antigo), acompanhamos a transformação constante dos museus. Hoje pretendem ser inclusivos, combater discriminações, defender o direito à memória. No contexto latino‑americano e no Brasil que mais mata LGBT no mundo, essa nova performance dos museus é emergencial. Contudo, o direito à memória se tornou um grande chavão na museologia, ao menos no que se refere aos LGBT e em especial aos T da longa sigla. No Brasil, a ideia de um Museu Trans ou LGBT demora a pegar: seja pela força da fobia aos LGBT que domina as políticas culturais, seja pelo lugar do museu no Brasil, intencionalmente excludente, que teima em coquetéis e escandalosos banquetes do mais do mesmo ao invés de se democratizar.

No âmbito geral dos museus, impera o raciocínio excludente: “não tenho nada contra”, nos disse certo diretor de um museu mantido por fundos públicos, “mas esta não é a missão do meu museu”. Assim tem sido: os museus de arte, medicina, história, tecnologia ou até mesmo os comunitários protegem‑se em suas missões que, evidentemente, não incluem a questão LGBT justamente por terem sido construídas em contextos fóbicos aos mesmos. Perde‑se, com isso, a possibilidade de discutir com a sociedade os resultados de uma história violenta e as alternativas de paz que se poderiam construir.

Silêncios nos museus, silêncios na academia. A falta de políticas de combate à fobia aos LGBT nas universidades, a incapacidade das Ifes em possuir um programa de acesso (onde o nome social fosse utilizado desde o início dos processos seletivos) e permanência LGBT, a ausência de linhas de pesquisa ou publicações sobre o tema, a negativa de orientação constante aos estudantes interessados em pesquisar o tema (a desculpa recorrente é a ausência de produção), entre outros fatores, evidenciam a conivência acadêmica com a homo, lesbo e transfobia. Eventos da museologia tratando especificamente do tema? Nenhum até o momento, é claro.

Disso tudo, longas dúvidas: o que podemos afirmar sobre a comunidade museológica brasileira a partir do fato dos mais de 3 mil museus do Brasil não abordarem a questão LGBT? O que faz com que nem mesmo exposições temporárias, com curadoria trans por exemplo, possam ser montadas? E por que não uma Primavera nos Museus LGBT promovida pelo Ibram? Por que parece ser absolutamente impossível pensar que o Brasil possa ter uma experiência como a do Museu Travesti no Peru? Será a comunidade museológica brasileira homo, lesbo e transfóbica?

Novidades recentes, entretanto, temos para contar a partir de 2013. O Museu da Diversidade em São Paulo, um museu sub‑way na estação da República, dedicou sua primeira exposição, O T da questão, para população trans. Foi a primeira exposição em um museu mantido por fundos públicos a adotar este tema, ao menos que temos notícia. Logo em seguida, esse mesmo museu montou a exposição Crisálidas, composta por fotografias de Madalena Schwartz feitas com a população trans dos anos de 1970. Já o Museu das Bandeiras (Muban) promoveu a I Semana do Babado, dedicada a discutir a homo, lesbo e transfobia em Goiás: rodas de conversas, espetáculos de divas trans e uma exposição com fotos de membros da comunidade LGBT de todo país fizeram parte da extensa programação. Na fachada do Muban, uma imensa bandeira arco‑íris foi erguida pela primeira vez em um museu do Instituto Brasileiro de Museus (Ibram‑Minc). Tanto no Museu da Diversidade quanto no Muban, avanços democratizantes: a população LGBT percorrendo os espaços museais, representando‑se e vendo‑se representar. Paralelamente, o absurdo da segregação: protestos de setores conservadores que insistem em afirmar que o lugar dos LGBT não é nos museus.

Obviamente, nascidos em um mundo que diz não ser para nós, encontramos alternativas criativas para essas barreiras – trata‑se da capacidade de se recriar que o pensamento trans possibilita. Nesse sentido, temos feito nossa parte. A criação da Rede LGBT de Memória e Museologia Social e a presente revista são algumas das ações que tem feito diferença em amplos setores. Na universidade, tocamos em frente um programa de Extensão chamado Comuf (Comunidades+Universidades Federais), onde um de seus projetos é destinado a acolher o membro comunitário e o acadêmico LGBT, possibilitando seu acesso e permanência ao Ensino Superior por meio da formação do extensionista‑pesquisador LGBT: não queremos ficar falando em nome dos T; queremos, sim, formar museólogxs trans!

Também oferecemos um mini‑curso para cursos de museologia, museus, escolas e movimentos sociais sobre a história e memória LGBT – até o momento, nenhum museu ou universidade solicitou tal serviço ao contrário dos demais setores. Mas bora lá trabalhar, sem desanimar.

Mas e você, profissional de museus‑patrimônio‑memória, o que tem feito? Sugiro que comece se travestindo para experimentar na pele o brilho de outras almas, como a de Campuzano, e com isso encontrar caminhos que recriem a museologia brasileira, transicionando‑a, de fato, em uma museologia efetivamente democratizadora.

¹jeantb@hotmail.com

²tony@memorialgbt.com

REVISTA MEMÓRIA LGBT – ANO II – EDIÇÃO II – janeiro /2014 – P.08-10- ISSN 2318-6275

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