• Rodrigo Azócar¹

Algumas notas etnográficas sobre o mercado e visibilização gay em Valparaíso – Chile


As seguintes linhas refletem o resultado de algumas anotações do trabalho de campo desenvolvido na cidade chilena de Valparaíso, realizado nos meses de julho a dezembro de 2012, e de janeiro a maio de 2013. Foi uma experiência etnográfica que permitiu gerar um diálogo entre os dados e a teoria (GUBER; 2005) em um processo de contraste e dinâmica interacional. O objetivo geral da pesquisa é coletar elementos empíricos que deem conta da compreensão dos significados que ortogam os sujeitos na boate Pagano em relação a construção dos espaços de visibilidade gay em Valparaíso, Chile.

A discoteca Pagano é um estabelecimento icônico na cidade, localizada no bairro Puerto. Foi parte de um processo de valorização e apropriação de uma zona com características de espoliação urbana (KOWARICK; 2009) da cidade por parte de grupos que, segundo a Becker (2008), poderíamos denominar Outsiders por seus atributos de exclusão social, como por exemplo, o questionamento a sua vestimenta, sua orientação sexual, entre outros.

O surgimento de espaços de diversão orientados a pessoas lésbicas, gays, bissexuais, transexuais e intersexuais (LGBTI) na cidade de Valparaíso faz parte de um processo maior com características de abertura, vinculado aos acontecimentos socioculturais vividos no Chile nos últimos quarenta anos. Como explica Camilo Braz (2012), estes espaços de promoção de uma diversidade sexual permite o contato com certos estereótipos dentro da cultura gay.

Camilo Braz dialoga com os mais importantes autores brasileiros sobre a temática gay, em seu texto Á meia luz… uma etnografia em clubes de sexo masculinos. Fazendo uma reflexão por meio de uma investigação a longo prazo, em clubes da cidade de São Paulo, com o qual enfrenta diversas concepções de masculinidade dentro deste contexto. Onde existe uma espaço de alternação entre homens. É muito interessante a reflexão que toma Néstor Perlongher ao referir‑se a noção de Gueto Gay utilizada no Brasil e a concepção que Eduardo Magnani utiliza, de Manchas ou Circuitos, para relatar a aglomeração de comércios que atende a um público gay. Esta ideia representa claramente o que acontece no bairro Puerto de Valparaíso, também conhecido como bairro Chino, devido ao seu caráter de ser perigoso, por ser excluído e segregado do resto da cidade, mas que tem mudado vagarosamente, se tornando um lugar De diversão, destinado principalmente a um público composto pelos excluídos. É assim que a discoteca Pagano, desde o ano 2000, passou promover uma abertura ao mercado, e voltado sua atenção a um público alternativo, composto por pessoas (LGBTI) como também para aqueles grupos urbanos deixados à margem, como Punks, Góticos, entre outros.

O recorte espaço‑temporal da pesquisa tem como centro o bairro Porto, espaço fundamental da cidade e próximo as instalações portuárias foi adquirindo fama de bairro de lazer, entretenimento, diversidade e tolerância. Mesmas características de hoje da espaço a lugares de diversão para a comunidade mais diversificada da cidade, espaço de habitação para jovens e Famílias de profissionais das casas de reabilitação e de conservação patrimonial, impulsionado principalmente pela característica de Patrimônio Cultural da Humanidade, com o qual a UNESCO reconhece Valparaíso desde o ano de 2003 e que conserva até hoje.

O século XX marcou o ponto de decadência da cidade. As crises econômicas, as trocas de produção, a imigração de pessoas que liberaram o empreendimento da cidade e a inauguração do Canal do Panamá como nova rota de entre o Pacífico e o Atlântico, fizeram sucumbir a cidade a um abismo de decadência, pobreza e esquecimento. São precisamente estes adjetivos que hoje dão um valor patrimonial incalculável a cidade, e que se representa e em sua Arquitetura, seus costumes e história social.

Hoje a cidade vive um processo de revitalização de seu patrimônio, refletida em políticas que buscam preservar os vestígios desse passado, como também em potencializar a cidade como um polo turístico (um conjunto como o de Viña del Mar, la cidade conhecida como capital turística do país) cultural.

Explorar o potencial cultural da cidade, foi objetivo primordial das últimas políticas urbanas, habitacionais e turísticas. Hoje a cidade e sede do Conselho Nacional da Cultural e das Artes e centro de expressão de diversas manifestações imateriais que resgatam as tradições da cidade, com novas expressões de são impressas num caráter artístico e cultural.

Há grande presença de jovens estudantes (existem mais de noventa Universidades de Centros de Educação Superior), com ativa e ampla oferta de lazer, sua paisagem urbana caracteriza uma cidade que valoriza sua característica de diversidade. Estas características sócio‑históricas tem permitido que a cidade acolha os mais diversos grupos sociais, compartilhando espaços e traços da cidades, os mesmos que são posteriormente identificados pelos próprios habitantes.

Um destes espaços, o Bairro Porto. Histórico centro de lazer e de diversão noturna, lugar de encontro para marinheiros de todo mundo, mercantes que atracam no porto cercado dos mais diversos grupos underground presentes na sociedade, com maior ou menor visibilidade no cenário formal.

Precisamente em seus prostíbulos, em seus bares, e seus hotéis, em companhia de delinquentes, ladrões, prostitutas onde se vem forjando a identidade do lugar como espaço de tolerância e diversidade.

Neste bairro fica a Discoteca Pagano, que está há duas décadas como espaço para aqueles “alternativos” que não tinham lugar na oferta particular e tradicional em outras zonas da cidade.

Um espaço de reunião protegida dos olhares acusadores, repressores e questionadores, que com o passar dos anos foi adquirindo o status de “lenda urbana” pelas históricas que se tem em torno de suas performances rotulantes encarnadas pelas chamativas mulheres de grandes sapatos, trajes multicoloridos e vistosas plumas.

Pagano foi se convertendo no centro de lazer gay da zona, ainda se contar com outros espaços de diversão tipificados para este público específico, eles foram perdendo protagonismo diante da reunião dos diferentes grupos sociais em um pequeno e escuro local da esquina de ruas Clave y Blanco.

Eis aqui onde há um olhar antropológico que se desenvolve essencial no resgate destas histórias que vão configurando consigo um acervo de grande relevância para conformação de uma identidade gay local e nacional. Neste espaço de abertura e tolerância onde existem histórias das pessoas e das comunidades do entorno e a diversidade, integração e respeito, como também existe a homofobia, a falta de respeito e o ódio.

O contexto do surgimento da discoteca Pagano no Bairro Puerto de Valparaíso deve ser analisado em conjunto aos acontecimentos que antecederam, permitindo descrever o Chile como um país conservador e altamente homofóbico. Segundo a Oscar Contardo (2011) o retorno a democracia é o momento que o país começa uma lenta caminhada de abertura aos temas sexuais (ROBLES; 2008), obrigando a sociedade a reconhecer e promover pequenos espaços de visibilização de pessoas, catalogadas como diversas;

No Chile, as ideias tradicionalmente associadas com a homossexualidade não foram refutados publicamente e de forma consistente, mas a partir dos anos noventa. Até então, era parte do senso comum dizer que os homossexuais são perturbados mentais, mesmo em círculos acadêmicos.(CONTARDO, 2011. p. 23. Tradução libre.)

Justamente na manifestação deste dilema que se manifesta a importância do mercado como facilitador de um processo de visibilização em uma sociedade marcada por estereótipos com pessoas (LGBTI) e faz parte de um diálogo que permeia o tema a respeito das convenções de gênero (BRAZ, 2012), colocando em tensão as possibilidades de integração na sociedade chilena.

O surgimento do mercado para gays na cidade de Valparaiso, de acordo com o contexto histórico e social, permitiu dar espaços de visibilidade para um grupo historicamente excluído e invisível. Esse mercado está dividido entre as respostas às necessidades de sociabilidade gay e o constante questionamento sobre a possível construção de guetos (FRANÇA, SIMÕES; 2005),a formação de um circuito ou mancha (MAGNANI, 2008) onde é preciso considerar as questões de poder, estilo, consumo e marcadores sociais da diferença, especialmente da classe.

Referencias.

BECKER, Howard. Outsiders: estudos de sociologia do desvio. Rio de Janeiro: Zahar, 2008.

BRAZ, Camilo. À meia luz… uma etnografia em clubes de sexo masculinos. Goiânia: Editora

UFG, 2012.

CONTARDO, Oscar. Raro. Una historia gay de Chile. Santiago: Planeta, 2011.

FRANÇA, Isadora Lins; SIMÕES,Júlio. Do gueto ao mercado. In: GREEN, James; TRINDADE, Ronaldo (Org.). Homossexualismo em São Paulo e outros escritos. São Paulo: Ed. Unesp, 2006.

GUBER, Rosana. El salvaje metropolitano. Reconstrucción del conocimiento social en el trabajo de campo. 1a reimpresión. Buenos Aires: Paidós, 2005.

KOWARICK, Lúcio. Escritos urbanos. São Paulo: Ediciones 34, 2000.

MAGNANI, José Guilherme Cantor. Quando o campo é a cidade: fazendo antropologia na

metrópole. In: MAGNANI, José Guilherme Cantor; TORRES, Lilian de Lucca. Na metrópole: textos de antropologia urbana. São Paulo: Edusp/Fapesp, 2008.

ROBLES, Víctor Hugo. Bandera hueca. Historia del movimiento homosexual en Chile. Santiago: Editorial ARCIS, 2008

¹E-mail - rodrigoazocar@gmail.com

REVISTA MEMÓRIA LGBT – ANO II – EDIÇÃO II – janeiro /2014 – P.51-54- ISSN 2318-6275

WWW.MEMORIALGBT.COM

#gay #lgbt #MemóriaLGBT #visibilidade #ValparaísoChile #Valparaíso #Chile #RodrigoAzócar #discotecaPegano #LGBTI #BairroPuertodeValparaíso

0 visualização

© 2016 REVISTA MEMÓRIA LGBTIQ+

Brasil

Entre em contato: contato@memorialgbt.org