• Treyce Ellen Goulart¹

ENTRE AS MULHERES, EU SOU NEGRA, ENTRE AS NEGRAS, EU SOU LÉSBICA


O sentimento de inadequação contido na fala da poetisa negra e lésbica Audre Lorde ressoa em meus pensamentos e nas memórias que tenho de inúmeros relatos de outras jovens mulheres negras e lésbicas. Ao que parece, nós precisamos vencer de uma só vez três entraves sociais estabelecidos: o machismo, o racismo e a homofobia. Me pergunto qual seria o pior dentre os três, qual seria a nossa prioridade, nosso maior inimigo a combater?

Quando pensamos somente sobre os dois primeiros termos desta equação não poderia me privar de referendar Bell Hooks. A autora nos lembra de que, durante muito tempo, nos foi dito que a emancipação do sistema racista seria o bastante para a garantia de nossa liberdade. Naquele momento nos parecia que o racismo deveria ser nossa maior preocupação. Antes de sermos mulheres éramos negras. Estas questões também se fizeram presentes no Brasil, como é apontado pela professora Sueli Carneiro. Por aqui, as memórias contadas por nossas bisavós, avós e mães eram/estão traduzidas em corpos que trazem marcas de seres aos quais nunca fora concedida a imagem de fragilidade, como tradicionalmente ocorria com mulheres brancas.

Entretanto, é inegável que estivemos tanto lá quanto cá duplamente oprimidas pelo racismo e pelo sexismo.

No campo da visibilização de nossas identidades, nossa orientação sexual – nossas lutas, vitórias, derrotas e avanços nesta área se apresentam bastante ofuscados. Pensemos e listemos juntxs uma lista de cinco mulheres negras lésbicas ou bissexuais. Conseguiu lembrar alguém? Confesso: quando comecei a desacomodar o meu olhar e realizar este exercício proposto, percebi que, pessoalmente, tive durante minha adolescência e mesmo hoje pouquíssimas ou nenhuma referência de lésbicas ou bi. Mesmo hoje precisei recorrer a outras companheiras, ativistas/blogueiras e à internet. Tive a felicidade de encontrar e me apaixonar pela cantora Tracy Chapman (trilha sonora da escrita deste texto), descobrir a bissexualidade da rapper e atriz norte americana Queen Latifah, relembrar Preta Gil entre outras de nós que aí estão inseridas no cenário cultural.

Ao encontrá-las, algumas questões ficaram esclarecidas enegrecidas (sim, enegrecidas porque me incomodaram, chamaram à reflexão, ao questionamento). Onde estarão as mulheres negras e bissexuais assim como eu nas Universidades, por exemplo? Existe um conhecimento científico aprofundado e que nos represente? Onde estão registradas e valorizadas nossas memórias, nossa resistência e nossa batalha cotidiana pela sobrevivência aos, ao menos, três sistemas de opressão cotidianamente enfrentados por nós?

Hoje é possível vislumbrar um cenário de relativos avanços, forte e resistentemente conquistados por nós mulheres negras. Entretanto, me parece que nossa força e enfrentamento aos danos causados por este duplo sistema de opressão não significa transformá-lo. Nossas realidades nos permitem um olhar marcado por especificidades e que devem ser considerados nas lutas pelos direitos das mulheres. Em um mundo em que conquistamos a legalização ao casamento homoafetivo, em que a sexualidade é celebrada (pelo menos em nosso meio), em que nos unimos frente àqueles que desejam e procuram tolher nossos direitos mais básicos como podemos trazer a tona, discutir, fortalecer nossas especificidades e enfrentar os desafios enquanto negras lésbicas/bissexuais? Não procuro aqui apresentar respostas prontas, porque, de fato, não as possuo.

Deixo a reflexão e o dever de casa (para mim também) de buscar estes vestígios que guardam pedaços de nossas memórias e de nossa história e que talvez possam colaborar na composição identitária de cada uma de nós.

1Contato - treyceellen@hotmail.com

REVISTA MEMÓRIA LGBT – ANO I – EDIÇÃO I – NOVEMBRO/2013 – ISSN 2318-6275

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